quinta-feira, 11 de dezembro de 2014

"Na Próxima Lua Cheia" e "Jarbas" para download gratuito em PDF



Queridos amigos:

Segue abaixo os links para as versões em PDF dos meus livros de lobisomens – “Na Próxima Lua Cheia” e “Jarbas” – para download gratuito daqueles que, porventura, ainda não tiveram oportunidade de ler.

Com isso eu concluo em definitivo a minha trajetória dentro do gênero. O tempo passa, os interesses mudam e a motivação para escrever também. O tempo agora é de expansão para outros níveis de atuação.

Quero aproveitar para agradecer a todos que me ajudaram com estes trabalhos, seja na forma de divulgação ou mesmo com palavras de incentivo. De forma especial, minha gratidão a Eduardo Bonito, Adriano Siqueira, Ademir Pascale, Georgette Silen, Giulia Moon, Peter Baiestorf, Renato Rosatti, Osvaldo Neto, Iam Godoy, Rosana Raven, Alfer Medeiros, Celly Borges e principalmente, ao cara que acreditou e “bancou” o meu trabalho muito antes de qualquer outro se mostrar disposta a fazê-lo: Marcelo Amado.

Deixo também o mais sincero pedido de desculpas pelos meus erros e percalços cometidos durante o período em que estive envolvido com a cena da Literatura Fantástica Nacional.

Grande abraço a todos!

Na Próxima Lua Cheia:

Jarbas:

quarta-feira, 2 de outubro de 2013

A VERDADE

 
                Robério estava exultante. Havia saído de uma jornada de trabalho monótona e cansativa como outra qualquer, e, por ser sexta-feira, decidiu fazer aquela escala tradicional no seu bar favorito antes de retornar para casa. Foi aí que as coisas começaram a melhorar. Uma garota chegou de repente e sentou-se no balcão, ao seu lado. Ela tinha pele clara, cabelos negros, longos e lisos, e usava um vestido vermelho, curto e sensual. Possuía também olhos escuros e atraentes que, sem nenhuma cerimônia, passaram a encarar Robério de forma provocativa. Depois de dez minutos os dois já estavam bebendo e conversando animadamente. Uma hora mais tarde o casal se encontrava entrando na casa da moça de forma afoita, entre beijos calorosos e carícias lascivas.
                – Preciso ir ao banheiro. – disse Robério, enquanto tirava o casaco.
                – É a porta no final do corredor – indicou a moça apontando para a direita, ao mesmo tempo em que descalçava os sapatos. – Vou te esperar no quarto. Venha logo.
                O rapaz seguiu na direção indicada com um sorriso estampado no rosto, acreditando que a sorte havia lhe estendido a mão. Porém, poucos segundos depois, essa sensação de euforia revelou sua face ilusória. Quando chegou à entrada do banheiro, Robério olhou casualmente para a porta localizada no lado esquerdo e, através de uma fresta entreaberta, vislumbrou algo que fez o seu sangue gelar. Aparentemente não era nada de extraordinário, apenas um monte de coisas – algumas parecendo serem muito antigas – espalhadas aleatoriamente pelo chão de um quarto sem mobília nenhuma. Havia peças de roupas, tanto masculinas quanto femininas, de várias cores e modelos diferentes, joias, óculos, maletas, molhos de chaves, bolsas, carteiras, chapéus e calçados, além de alguns objetos de natureza diversa, como discos de vinil, celulares, fitas K7, aparelhos de MP3 e outros artefatos do tipo.
                Robério não sabia o significado daquilo tudo e, ainda que a sua mente se esforçasse em afirmar que não era nada de mais – talvez a garota trabalhasse com antiquários – crescia em seu interior uma terrível sensação de angústia, do tipo que muito raramente se manifesta, mas que quando surge é indicativo que algo de ruim vai acontecer.
                – Eu falei que o banheiro era na porta no final do corredor. – disse a moça, surgindo às costas de Robério de forma tão sorrateira que o susto fez seu coração disparar.
                – O que são todas essas coisas?! – indagou o rapaz, com voz trêmula.
                – Droga, eu pensei que a gente iria transar – suspirou a moça, em tom pesaroso – Porque você precisava xeretar aí?
                - O que são todas essas coisas?! – repetiu Robério, quase que totalmente invadido por uma sensação de pavor tão palpável que fazia o suor escorrer pelo seu peito e empapar sua camisa.
                – São souvenirs. – respondeu a garota, de forma impassível.
                – Souvenirs?! Que tipo de souvenirs?!
                – Lembranças dos lobisomens que eu matei. – explicou a moça, dessa vez com um tom de voz estranhamente alterado.
                Robério deu um passo atrás e suas costas se chocaram com a parede do corredor. Além da voz, algo mais parecia diferente na garota.
                – Eu sou um lobisomem que odeia outros lobisomens – continuou a moça, falando de forma pavorosamente gutural – e, quando os mato, gosto de guardar algo para recordação.
                Vendo a moça se transformando em algo inumano diante de seus olhos, Robério cogitou sair correndo ou ao menos gritar por socorro, mas, ao invés disso, o pânico que o dominava só permitiu que pronunciasse uma única frase com voz embargada:
                – Eu não sou um lobisomem!
                – Claro que não! – respondeu a criatura que agora muito pouco lembrava a bela mulher de outrora. – Você é apenas comida!
                No instante seguinte, o monstro agarrou Robério pelo pescoço, suspendeu-o no ar com extrema facilidade e lhe desferiu uma violenta mordida no ombro esquerdo. Tomado por uma dor absurda, o rapaz gritou, se debateu e esperneou, mas percebeu que seria impossível escapar das garras da besta. Quando as esperanças já lhe abandonavam junto com o sangue que escorria do ferimento, Robério percebeu que a criatura simplesmente o atirou no chão com truculência, fazendo com que fosse parar na divisa entre a porta do corredor e a sala de estar.
                Tentado resistir à dor lancinante que o atordoava, o rapaz observou com surpresa que o monstro passou por ele caminhando lentamente e adentrou na sala movendo sua horrenda cabeça para cima em movimentos circulares, como se estivesse farejando algo.
                Um segundo depois a janela à esquerda da sala explodiu em milhares de estilhaços quando através dela saltou outro lobisomem que aterrissou violentamente sobre o corpo do primeiro. Robério teve a impressão que desmaiaria de susto, mas, como isso não se consumou, ele pode observar as duas bestas se engalfinhando em uma luta mortal onde, em meio a sangrentas patadas e mordidas, rolavam pela sala inteira, derrubando e quebrando tudo que houvesse pela frente.
                Ainda que o monstro que atacara Robério resistisse ensandecidamente, era visível que a criatura recém-chegada levava vantagem, pois, graças ao ataque surpresa, conseguiu desferir de imediato uma devastadora mordida na garganta do oponente, o que ia progressivamente minando suas forças na medida em que o sangue fluía do ferimento.
                Depois de instantes que pareceram ao rapaz muito mais longos do que realmente foram, seus olhos vislumbraram o corpo nu e sem vida da garota estendido em uma poça do seu próprio sangue. Quase ao mesmo tempo, o monstro vitorioso iniciou uma bizarra metamorfose que o converteu à forma humana. Era um homem de meia idade, baixo, magro e de cabelos castanhos. Porém, o que realmente chamava a atenção em sua aparência era a profusão de cicatrizes espalhadas por todo o corpo – as piores no pescoço e nos ombros – e as anomalias que ele ostentava, como a ausência da orelha esquerda e uma deformidade na perna direita, que o fazia caminhar mancando.
                – Foi muito difícil encontrá-la, mas dessa vez acabei com a sua raça, puta desgraçada! – exclamou o homem, sem dar atenção a Robério. – Você não foi a primeira a tentar me matar, mas roubar o meu trabalho de uma vida inteira, isso jamais!
                O sujeito caminhou com certa dificuldade até o interior do corredor que levava aos outros aposentos da casa. Nesse meio tempo, Robério se escorou na parede e tentou se levantar. Teve a impressão de que conseguiria, mas, como o indivíduo retornou logo em seguida, julgou mais conveniente ficar sentado, imóvel e em silêncio.
                O homem reapareceu na sala carregando uma maleta de couro antiga e surrada. Ergueu do chão uma cadeira e sentou-se com o objeto no colo. Havia um enorme sorriso de satisfação no seu rosto.
                – Essa puta achou que tinha me matado e ainda roubou a única coisa valiosa que eu tenho! – disse o desconhecido, se dirigindo pela primeira vez a Robério. – Ela devia ter se certificado da minha morte. Esse foi seu erro.
                O rapaz ficou surpreso com o tom de voz amistoso daquele indivíduo, e mais ainda quando ele abriu a pasta e começou a retirar de lá uma série de fotografias.
                – Veja – disse o homem, apontando na direção de Robério uma antiga foto em preto e branco onde se via um garotinho sorridente – Esse é o meu filho, Sílvio, a única coisa boa que fiz na vida.
                Em seguida, outras fotos foram sendo mostradas ao rapaz. A maioria era do mesmo menino, que devia ter uns três ou quatro anos de idade. Havia algumas em que o sujeito aparecia segurando a criança no colo e Robério reparou que nos retratos ele aparentava ter exatamente a mesma idade atual, mas sem as cicatrizes e ainda com as orelhas intactas.
                – Ele morreu no ano passado, aos oitenta e quatro anos – disse o desconhecido, com lágrimas nos olhos – Me deu três netos e dois bisnetos, até agora.
                Como Robério apenas ouvia, sem nada responder, o homem prosseguiu com seu relato.
                – Eu fui atacado por um lobisomem pouco depois que as últimas dessas fotos foram feitas. Sílvio cresceu e viveu toda a sua vida pensando que eu havia morrido em uma caçada.
                – E você nunca tentou... – balbuciou Robério, tentando levar a conversa adiante, na expectativa de que a sorte voltasse a lhe sorrir e ele pudesse sair vivo dali.
                – Me reaproximar dele?! – completou o sujeito. – Claro que não! Eu logo entendi no que havia me transformado. Se eu não sumisse só iria desgraçar a vida de todos que amava. Mas eu sempre o acompanhei de longe. Chorei por não poder abraçá-lo nos momentos de dificuldade, vibrei com suas vitórias, sofri por não participar da sua vida, por não desempenhar o meu papel de pai nos bons e maus momentos. Mas, foi melhor assim. Ele teve uma vida boa e plena, foi um homem honrado e me deu muito orgulho. Lembrar disso me deixa feliz.
                O desconhecido fechou a maleta e levantou-se bruscamente da cadeira, fazendo Robério se encolher instintivamente contra a parede.
                – Eu não vou matá-lo – disse o sujeito, percebendo o medo do rapaz – Faz muito tempo que só mato quando é extremamente necessário.
                Robério nem teve tempo de sentir-se aliviado, pois o indivíduo logo se encarregou das más notícias.
                – Preciso lhe dizer algo: você foi mordido, portanto, agora é um de nós. Amanhã, quando a lua cheia surgir novamente, você vai se transformar numa coisa horrível como aquela em que eu e a vadia ali nos transformamos – o tom de voz do desconhecido era ao mesmo tempo calmo e pesaroso. – Vai virar um monstro furioso e descontrolado que atacará qualquer um que aparecer na sua frente. Não irá envelhecer e nem morrer, a não ser pela prata ou pelas garras de outro lobisomem, mas terá, na sua consciência, que conviver com o peso de todas as mortes que ocorrerem no seu caminho. E isso, meu rapaz, é a certeza de que um dia sua alma vai arder no inferno. Nenhum sangue pode ser derramado em vão.
                – Você disse que não mata há anos...! – resmungou Robério, sem conter as lágrimas que escorriam por sua face.
                – Se você não for morto e nem enlouquecer, o que acaba acontecendo com a maioria de nós, depois de um bom tempo e fazendo um grande esforço, talvez consiga ter controle sobre a transformação e certa lucidez na forma de fera. Mas, não se iluda, isso não garante nada. É como o alcoólatra que se embebeda para esquecer a sua vida de merda, mas, quando o porre passa, a merda toda continua lá.
                Desolado, Robério levou as mãos ao rosto e começou a chorar convulsivamente. O desconhecido observou a cena por alguns segundos e então tornou a sentar-se.
                – Eu posso lhe dar um presente! – disse o sujeito, com certa empolgação, ao mesmo tempo em que abriu novamente sua maleta e retirou algo de um fundo falso muito bem camuflado – Uma oportunidade que não foi dada a mim...
                Tentando conter as lágrimas, o rapaz olhou para o desconhecido e uma pistola calibre 22 foi oferecida em sua direção. Sem entender exatamente o que aquilo significava, Robério instintivamente pegou a arma com mãos trêmulas.
                – Está carregada com uma bala de prata – disse o indivíduo ao entregar a pistola – Tenho ela há muito tempo, para o caso de alguma emergência. Acredito que ainda funciona.
                – Você... você quer... que eu me suicide?! – balbuciou o rapaz.
                – Se fizer isso agora, estará destruído apenas o seu corpo. Se morrer depois de já ter se transformado e começado a matar, terá condenado também a sua alma.
                O sujeito começou a caminhar na direção da porta de saída, e então se voltou para Robério.
                – Acho bom você decidir-se logo.  Minha audição de lobo já está captando as sirenes da polícia a alguns quarteirões daqui. Devem ter sido os vizinhos.
                Sem acrescentar mais nada, o desconhecido saiu da casa e atravessou rapidamente o amplo pátio que o separava da rua. Não era nada sensato um homem nu e ensanguentado ficar zanzando a pé por aí carregando uma maleta, ainda mais com a polícia se aproximando. Por isso ele decidiu que precisava de um carro.
                Trinta segundos depois, um Gol branco surgiu descendo a rua. O desconhecido enfiou-se na frente do veículo, obrigando o motorista – um homem gordo e baixo, com um bigode volumoso – a frear bruscamente.
                – Preciso do seu carro. Você vai me entregar numa boa ou eu terei que matá-lo? – disse o sujeito, sorrindo em seguida e deixando à mostra enormes presas pontiagudas que, somadas aos seus olhos vermelhos reluzentes, davam um vislumbre do monstro que se ocultava sob a forma humana.
                Soltando um grito abafado, o motorista praticamente se jogou para fora do carro e saiu correndo o mais rapidamente que podia. Quando o desconhecido sentou-se ao volante, escutou o estampido de um tiro vindo do interior da casa de onde saíra.
                – Sábia decisão, garoto, sábia decisão. – murmurou ele, pisando fundo no acelerador.  
        
                      

sexta-feira, 13 de setembro de 2013

A MÃO VERMELHA


            Padre Hipólito já caminhava em círculos diante da casa canônica há mais de uma hora, quando subitamente uma Belina estacionou com uma freada brusca diante da calçada. Do interior do veículo desembarcou apressadamente um homem de meia idade, com cabelos desgrenhados e barba por fazer. A batina preta não deixava dúvidas quanto à identidade do sujeito, e a sua maneira de caminhar – ligeiramente trôpega – acompanhada do forte cheiro de uísque que parecia impregnar suas vestes deixava claro que os boatos acerca de seu alcoolismo eram mais do que verdadeiros.

            – Padre Hipólito? – inquiriu o recém-chegado, em um tom de voz arrastado.

            – Sim. – respondeu o outro sacerdote, com rispidez – E você certamente é o Padre Sérgio. Eu o aguardo há horas!

            – Vim tão logo o Bispo me ligou... Mas, o senhor sabe, Porto Alegre não fica tão perto e essas estradas são terríveis! Não me admira que o senhor tenha sido o único sacerdote da Congregação que aceitou assumir está paróquia! Que cafundó!

            – Não fale assim! As pessoas daqui são muito simples, mas trabalhadoras e tementes a Deus! Por isso mesmo precisam tanto de nosso suporte espiritual. Mas agora chega de conversa! Logo vai anoitecer e precisamos partir imediatamente para a residência da família Ricci. A fazenda deles fica há 20 quilômetros daqui e a estrada é ainda pior do que aquela que você acabou de cruzar.

            – Certo, certo! Vamos com seu carro ou com o meu?

            – Eu é que não saio com você no volante! Vamos com o meu!

            Enquanto se encaminhavam para o Fusca estacionado na entrada da garagem da casa paroquial, Padre Sérgio retirou um pequeno frasco metálico do bolso da calça oculta sob a batina e bebeu um longo gole no gargalo.

            – O Bispo sabe que você bebe desse jeito?! – inquiriu Padre Hipólito, em tom de reprovação.

            – É claro que sabe! – respondeu o outro sacerdote, sem disfarçar a irritação – E se você conhecesse um pouco melhor o trabalho da Mão Vermelha, concordaria que essa e outras concessões que nos são feitas são mais do que merecidas para compensar o tipo de coisa que precisamos fazer!

            – Realmente, nunca fiz questão de saber mais sobre essa ramificação da Mão Vermelha. Aliás, até hoje não compreendo como o Vaticano permite que a nossa Congregação mantenha algo assim.

            – Pois você deveria ser grato por não precisar saber! Goste ou não da ideia, o fato é que o Vaticano não só permite como também subsidia a Mão Vermelha por um único motivo: ela é um mal necessário!

            Padre Hipólito resmungou, contrariado, mas preferiu não levar adiante a discussão. Afinal, ele próprio telefonara ao Bispo pedindo ajuda, e se foi designado em seu socorro aquele sacerdote sombrio e beberrão, decerto era porque ele saberia o que fazer.

            A dupla de clérigos embarcou no Fusca e rumou para a área rural do município através de uma estrada poeirenta e esburacada. O sol descia rapidamente por detrás dos morros no extremo oeste do vale, e o Padre Hipólito remexeu-se inquieto ao volante quando constatou que já seria praticamente noite quando chegassem ao seu destino.

            – E então? – disse o Padre Sérgio, quebrando o silêncio que durava desde o início da viagem – Pode me explicar a situação?

            – Não há muito o que dizer além do que já relatei ao Bispo e que certamente ele lhe informou: Há duas noites atrás, o senhor Ricci veio até mim desesperado, dizendo que a sua filha de oito anos havia sido possuída pelo demônio e que eu precisava ajudá-la. Mesmo relutante, acabei indo até lá, mas quando cheguei, ao amanhecer, a menina dormia tranquilamente no porão onde havia sido trancada, sem que houvesse qualquer sinal de anormalidade além do fato de ela estar nua e com o corpo coberto de cicatrizes, que me pareceram antigas.

            – Como eram essas cicatrizes?

            – Não sei lhe explicar, mas eram estranhas. Os pais da menina disseram que essas marcas surgiram no corpo dela algumas semanas antes, quando ela brincava perto do estábulo, ao entardecer e, de repente, desapareceu. Acabou sendo encontrada no meio do mato apenas no dia seguinte, em estado de choque. Até hoje diz não se lembrar do que aconteceu ou como aqueles ferimentos surgiram em seu corpo.

            – Entendo. E depois?

            – Bem, admito que cheguei a desconfiar que alguém estivesse... Abusando da menina e que aquela história de possessão fosse apenas uma desculpa para tentar encobrir a verdade. Saí dizendo à família Ricci que me chamasse novamente caso algo de estranho voltasse a acontecer. Passei o dia inteiro pensando no assunto e cogitei até mesmo ir à polícia solicitar uma investigação, e só não fiz isso porque preferi antes consultar o Bispo, o que pretendia fazer na semana seguinte, quando viajaria até Porto Alegre. Porém, ontem à noite o senhor Ricci reapareceu ainda mais desesperado do que na ocasião anterior, dizendo que estava acontecendo tudo de novo e praticamente me arrastou com ele. Quando chegamos à residência da família, encontrei todos na cozinha, rezando diante de uma imagem da Virgem Maria, e do porão, onde deveria estar trancada a menina, vinham os sons mais terríveis e pavorosos que jamais imaginei que um dia poderia ouvir em minha vida. Aquilo que estava lá embaixo batia furiosamente na porta tentando sair, e só não consegui porque o senhor Ricci e seus dois filhos mais velhos pregaram várias tábuas para reforçar o bloqueio.

            – Eu acredito... E o que aconteceu a seguir?

            – Eu juntei-me àquelas infelizes pessoas e entoei súplicas ao Nosso Senhor para que Ele findasse o tormento que se abatia sobre aquela casa. Porém, o terror continuou até o amanhecer, quando o silenciou voltou ao porão. Com muito custo, convenci a família a destrancar a porta e, pedindo proteção a Deus, desci até lá embaixo. Como na noite anterior, a menina estava dormindo pesadamente, como se nada tivesse acontecido. Em seguida, corri de volta à cidade e liguei para o Bispo contando tudo. Foi então que ele me assegurou que enviaria imediatamente alguém para auxiliar-nos. No caso, você.

            – Perfeito. Acho que já sei do que se trata. Mas, você deve prevenir aquela família para o pior. Creio que esse não seja um simples caso de possessão e, se eu estiver certo, podem ser necessárias medidas drásticas.

            Mediante as graves palavras do outro sacerdote, Padre Hipólito cogitou pedir esclarecimentos, mas desistiu ao se dar conta que já estavam chegando à casa da família Ricci. Neste momento, o sol já havia se posto e a noite apossava-se da situação. Quando a dupla de clérigos adentrou a residência, encontrou o casal e os dois filhos mais velhos reunidos na cozinha, aparentando enorme apreensão. Por detrás da porta que isolava a escada de acesso ao porão, uma chorosa voz infantil se fazia ouvir:

            – Me deixe sair, papai! Estou com medo de ficar aqui!

            – Abram essa porta! – ordenou Padre Sérgio.

            – Mas já anoiteceu... – ponderou o senhor Ricci – E quando anoitece o demônio encarna nela!

            Sem dizer mais nada, Padre Sérgio abriu a porta com truculência e desceu ao porão em companhia apenas do colega de sacerdócio. Logo a dupla de clérigos avistou a menina encolhida em um canto do porão e bastou uma rápida análise nas cicatrizes que ela ostentava pelo corpo para que o membro da Mão Vermelha compreendesse que as suas piores previsões estavam corretas.

            – Suba e comece a confortar aquelas pobres pessoas. – disse Padre Sérgio, retirando um revólver de dentro da maleta que trazia a tiracolo – Para salvar a alma desta inocente menina, precisaremos condenar o seu corpo.

            – Mas o que você está fazendo, seu louco! – gritou Padre Hipólito, arrancando a arma das mãos do outro – Eu mandei chamar um exorcista e não um assassino!

            – Me devolva essa arma, Padre! Compreenda que essa menina não está sendo possuída por demônio algum! Ela foi atacada por um licantropo e agora apenas a prata pode purificar seu corpo e libertar sua alma!

            Padre Hipólito tentou retrucar algo, mas sua voz foi completamente encoberta por um urro aterrador que ressoou vindo da direção de onde se encontrava a menina. Os dois sacerdotes olharam simultaneamente para aquele canto e puderam ver por entre as sombras do ambiente a silhueta enorme do monstro horrendo que se aproximava rapidamente. Antes que os clérigos pudessem fugir ou esboçar a menor das reações, a criatura agarrou o Padre Hipólito pelo pescoço, suspendeu-o no ar e arremessou-o de encontro à parede, no outro lado do ambiente.

            Por sua vez, Padre Sérgio acompanhou com os olhos aquele insólito vôo humano, muito mais interessado na arma que o outro tinha em mãos do que em qualquer outra coisa. Quando Padre Hipólito desabou pesadamente sobre um barril que se encontrava no extremo oposto do recinto, o revólver escapuliu de suas mãos e, com uma agilidade surpreendente para alguém que instantes antes parecia completamente bêbado, Padre Sérgio ajuntou-o do chão e no segundo seguinte já o tinha apontado para a cabeça da monstruosa criatura. Um único tiro ecoou pelo porão, acompanhado de um uivo de agonia que pareceu emanar do próprio inferno.

            Quando o Padre Hipólito conseguiu se levantar, com notável dificuldade, constatou perplexamente que não havia mais monstro algum no ambiente. Em seu lugar, jazia o corpo lívido e ensanguentado da filha caçula da família Ricci.

            – Por Cristo! E agora?! – indagou o chocado sacerdote.

            – Agora suba até lá e console aquela pobre família. É isso que lhe cabe. – respondeu Padre Sérgio, em um tom grave e ao mesmo tempo melancólico.

            – E você?!

            – Eu tenho as mãos vermelhas, lembra, Padre? Vermelhas de sangue. Eu faço o serviço sujo... E meu trabalho aqui já acabou. Esperarei lá fora.

            Sem dizer uma palavra, Padre Sérgio cruzou pelo angustiado grupo de pessoas na cozinha e saiu para o pátio. Bebeu de uma só vez todo o conteúdo que ainda restava em seu pequeno frasco metálico e depois se sentou na beira da estrada. Puxou um amassado maço de cigarros do bolso e permaneceu fumando em silêncio enquanto ouvia o choro convulsivo e os gritos desesperados que vinham do interior da casa. A família já estava sabendo da verdade.                    

quinta-feira, 31 de janeiro de 2013

LUA PERVERSA III

LUA PERVERSA III é a última parte de um projeto experimental de humor negro sobre lobisomens – e agora também sobre zumbis – protagonizada pelos lendários Petter Baiestorf e Coffin Souza, ícones do cinema underground brasileiro, e que conta no seu elenco também com a participação de outros nomes consagrados em meio às produções independentes nacionais, como Elio Copini e Gisele Ferran. Igualmente merecedora de destaque é a participação de Jorge Timm – reconhecido pelos admiradores do seu trabalho como um dos mais carismáticos atores do cinema marginal tupiniquim das duas últimas décadas – uma vez que este foi o último filme do qual ele participou antes de morrer, em meados de 2012. 

Seguindo a mesma linha dos curtas-metragens anteriores (e também da web série) LUA PERVERSA III busca narrar uma história calcada em elementos do folclore regional sulista através de uma linguagem alternativa que visa reproduzir determinados elementos estéticos dos antigos filmes mudos da década de 1920, prestando uma singela e bem-humorada homenagem aos clássicos do passado. 

Sinopse: Depois de se defrontar com a ameaça dos lobisomens, Jones (Petter Baiestorf) vê a sua pequena e remota comunidade rural ser súbita e inexplicavelmente invadida por uma horda de mortos-vivos. A situação sai definitivamente de controle com a chegada de uma bela forasteira (Gisele Ferran) que desperta o interesse de Jones e o ciúme de Jeremias (Jorge Timm), o coronel da região. 

Lua Perversa III, Santa Catarina, 2013, 19 min 
Produção, roteiro e direção: André Bozzetto Jr
Elenco: Petter Baiestorf, Gisele Ferran, Jorge Timm, Coffin Souza, Elio Copini, Alan Cassol, Rafael Picolotto, Juliana Seffrin, Priscila Alba, Felipe Zanchet, Douglas Zanchet e Rogério Bado.
Música-tema: "A morte é apenas o começo" (Sertão Sangrento)
 

domingo, 28 de outubro de 2012

Novo Livro: O INIMIGO FINAL


Sim, eu sei melhor do que qualquer um que este blog se tornou conhecido pelo conteúdo licantrópico – e que está praticamente abandonado atualmente – mas a razão é fácil de explicar.

Em 2013 a minha carreira de escritor completará 15 anos – em 1998 foi publicado o meu primeiro romance, Odisséia nas Sombras – e nesse meio tempo muita coisa mudou: cursei faculdade e mestrado, publiquei vários outros livros, casei, tive um filho, realizei o sonho de me tornar motociclista e recebi a honra de ser convidado a entrar para uma A:.R:.L:.S:. Com base em tantas mudanças, progressivamente a forma de interpretar e compreender a vida também mudou, e para quem escreve é natural a vontade (ou seria necessidade?) de se produzir obras que acompanhem nossa evolução e amadurecimento.

Tendo isso em vista, posso finalmente lhes apresentar O Inimigo Final, meu mais novo romance que, pela primeira vez, não flerta com o sobrenatural. Trata-se de um thriller, que mescla drama e suspense nas histórias entrecruzadas – e pontuadas por significativas doses de ação e violência – de três personagens que têm em comum a necessidade de enfrentar elementos de um passado traumático para solucionar dilemas do presente. Em meio a isso, há espaço para mesclar ficção e realidade com aspectos autobiográficos e experimentos narrativos metalinguísticos dando considerável destaque para a estética rock and roll na exploração de alguns temas que, guardadas as proporções, são comuns a todos os seres humanos.

Seguem mais informações:

Sinopse: Um fracassado músico de rock que precisa reencontrar o filho com quem mantém uma relação conturbada e ao mesmo tempo confrontar indesejáveis visitantes que ameaçam trazer à tona antigos e obscuros segredos.
Um jovem solitário que mantém aspirações poéticas e vive mergulhado na paranoia urbana de uma grande metrópole e que, após uma sucessão de acontecimentos insólitos, decide voltar à sua pequena cidade natal para acertar as contas com um passado traumático.
Um homem devastado pelo fim de um tórrido e polêmico caso amoroso que, em busca de uma forma para aplacar seu sofrimento, acaba se deparando com um fato inusitado que o leva a refletir sobre a condição humana e os rumos de sua própria vida.
Três personagens cujas trajetórias se entrecruzam de forma tão sutil quanto determinante em uma história ambientada em redutos noturnos de boemia e truculência e perpassada por temas sombrios como o ódio e a vingança, mas também redentores como a amizade e o perdão.
Puxe uma cadeira, peça uma cerveja, curta a trilha sonora calcada no bom e velho rock and roll e descubra quem é o Inimigo Final.

Ficha Técnica:
Editora: Estronho
Páginas: 144
Finalização de capa e diagramação de M. D. Amado
Ilustrações internas de Christiano Carstensen Neto
ISBN: 978-85-64590-31-1

O Lançamento oficial será no dia 11/11/2012, 16 horas, na 58ª Feira do Livro de Porto Alegre, na Praça da Alfândega.

O livro já está disponível para ser adquirido no site da Editora Estronho, ou diretamente comigo através do email bozzettojunior@yahoo.com.br, lembrando que, ao adquirir seu exemplar com o autor, ele segue autografado, com um marcador personalizado e valor promocional de apenas R$ 25,00, com frete já incluso.

Então, para você que curte os contos aqui do blog e/ou os meus livros sobre lobisomens, deixo o convite para que conheçam o meu novo trabalho. Apesar da ausência dos monstros, garanto que todos os outros elementos usualmente presentes nas minhas narrativas estarão lá. Quer uma amostra? Então clique AQUI e baixe a primeira parte da história!

Para mais informações, visite o Site Oficial do livro e curta a fanpage no facebook.

Valeu!    

domingo, 29 de julho de 2012

DIÁRIO DA LUA CHEIA – 08

Para manter o blog vivo, uma postagem (um pouco atrasada) dedicada a um ótimo e produtivo final de semana em Porto Alegre onde participei da I Odisséia de Literatura Fantástica, nos dias 27 e 28 de abril.

Sobre o evento em si, o que posso dizer é que foi excelente. Painéis instigantes, muitos livros por preços bem acessíveis nas bancas das editoras, ótima participação do público, vendas acima das expectativas e presença marcante de grandes escritores. Tudo isso em um lugar belíssimo, aconchegante e organizado de forma exemplar, em um clima de receptividade e camaradagem como poucas vezes vi anteriormente em eventos de literatura.

Fiquei particularmente contente em participar do simpósio, pois Porto Alegre foi a quarta cidade de três diferentes estados onde estive autografando o livro JARBAS e ajudando a divulgar a literatura licantrópica. 

Também foi uma grande satisfação rever escritores e amigos como MD Amado, Celly Borges, Rober Pinheiro, Silvio Alexandre, Giulia Moom, e poder conhecer pessoalmente vários outros como Daniel Borba, Douglas Eralldo, Roberto Causo e Marcelo Paschoalin.

Deixo aqui meus parabéns aos organizadores Duda Falcão, Christopher Kastensmidt, Cesar Alcázar e um agradecimento especial a todos que compareceram e prestigiaram esse belo evento.

E que venha a II Odisséia de Literatura Fantástica!






quarta-feira, 25 de abril de 2012

1ª ODISSÉIA DE LITERATURA FANTÁSTICA


Pensaram que o blog estava morto? Pois saibam que ele continua vivo, espreitando nas sombras o momento certo para ressurgir ao raiar de uma nova lua cheia.

Por hora, estou passando apenas para divulgar este grande evento voltado à Literatura Fantástica que ocorre entre os dias 27 e 28 de abril em Porto Alegre- RS, promovido pela Argonautas Editora, de Duda Falcão e Cesar Alcázar, idealizado ao lado de Christopher Kastensmidt.

Eu estarei presente nos dois dias do evento, especialmente em função do lançamento da antologia História Fantástica do Brasil – Guerra dos Farrapos (Editora Estronho, organizada por M. D. Amado e Armin Daniel Reichert) para a qual eu escrevi o prefácio, e também pela sessão de autógrafos em que participarei no dia 28, às 18 horas.

Aproveito para lembrar que o JARBAS, meu mais recente livro, estará à venda no evento com preço promocional de R$ 25,00. Então é uma ótima oportunidade para adquirir um exemplar autografado.

Recomendo a quem estiver em Porto Alegre ou região no final de semana que aproveite, pois haverá painéis interessantíssimos ao longo do evento, bem como a presença de uma grande quantidade de escritores, entre eles, alguns dos mais renomados da cena nacional.

Para conferir a programação completa, clique AQUI.

 Para checar a lista de todos os escritores que estarão presentes, clique AQUI.

Site Oficial do evento: http://odisseialitfan.wordpress.com/ 

Nos vemos lá!

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